domingo, 30 de novembro de 2014

IRONMAN - Que Experiência Incrível

IRONMAN, que experiência, já havia ouvido muita gente falar sobre suas experiências, o quão fantástico havia sido completar uma das provas mais duras do mundo, mas só depois que você faz a prova é que tudo que ouvi antes começa efetivamente a fazer sentido.
Muitos não sabem, mas minha história de IRONMAN começou há muitos anos, para ser mais exato 2007, aquele foi o ano em que decidi que essa seria minha prova alvo e que me dedicaria a ela, inicialmente com o objetivo de completar, mas já pensando em um dia correr em Kona.
A partir dessa decisão, que foi tomada lá pelos meados do ano de 2007, comecei a treinar para correr o Iron de Florianópolis do ano seguinte. Segui o plano traçado com meu treinador (Emerson Vilela), sessões diárias de treino variados entre natação, ciclismo, corrida e musculação, a dieta passada pela Gabriela Mota era seguida com rigor, muita disciplina, seguindo à risca as planilhas e respeitando também o descanso e a recuperação, que era muito potencializada com o trabalho do Roney Campos, meu acupunturista, terapeuta é amigo.
Tudo caminhava conforme planejado, tempos e distâncias bastante razoáveis para um iniciante em triathlons de longa distância, mas já o suficiente para não fazer feio, e nesse embalo fui para minha primeira prova longa, o Long Distance de Pirassununga, que era parte da minha preparação para o Iron, portanto o objetivo principal era completar a prova bem, pois aquilo me daria confiança para a prova de fogo em maio. Assim o fiz, completei os 1.900 m de natação, 90 km de bike e 21 km de corrida em 5h32min.
Ao final da prova ouvi o comentário que fechou o dia com chave de ouro, minha amiga Gisele Sauer fez seguinte pergunta: "como você termina essa prova com cara de quem correu 10 km?" Eu não sabia exatamente como, mas era uma forte indicação de que estava no caminho certo.

Em paralelo à isso tudo a vida seguia, principalmente no campo profissional e foi daí que veio o fato que mudou minha vida.
As coisas na minha carreira estavam meio mornas e como haviam posições abertas em outros escritórios resolvi me candidatar, assim após um mês de negociações, tanto no trabalho quanto com minha namorada estava decidido, íamos nos mudar para a Austrália.


E assim começavam meus
dias em 2014.
 Isso era dezembro de 2007 e todas prioridades daí em diante mudaram, aquele era um momento de me concentrar em novos desafios, eu e a Fernanda decidimos nos casar, íamos morar em um novo país e começar uma nova vida, agora juntos 24 x 7 e não havia outra opção, o IRONMAN estava oficialmente em hold, eu não conseguiria dar a dedicação que o Iron exige e naquele momento havia coisas mais importantes e prioritárias na minha vida.
Os anos que se seguiram foram maravilhosos, nossos primeiros anos de casados e de vida na Austrália foram espetaculares, fortalecemos nosso relacionamento, fizemos novos e ótimos amigos e conhecemos lugares inesquecíveis.
Mesmo assim, a distância era grande e a saudades da família nos fez voltar e começar uma nova fase de nossas vidas, agora próximos aos nossos pais, família e amigos que tanto sentimos saudades quando estávamos longe.
O retorno foi ótimo, mas também de muito difícil adaptação, as coisas levaram um tempo pra se ajustar, pra ser mais sincero alguns anos. Voltamos no final de 2010, depois de 3 anos de Austrália e posso dizer que demorei outros 2 anos para realmente me adaptar de volta.

Com isso, o saldo de 6 anos de treinos inconstantes e nenhuma disciplina pode ser traduzido num número, 16 kg. Sim, ganhei 16 quilos nesse período longe dos treinos, estava sedentário, péssimo condicionamento físico e muito descontente com a vida que estava levando, algo precisava ser feito e com urgência, mas o caminho entre a tomar ciência do problema e agir efetivamente é bem longo e no meu caso, apesar de não ter conciência, o que faltava era motivação. Que só chegou em dezembro de 2013.

No final do ano passado fomos passar o Ano Novo na casa dos nossos queridos amigos Michele Matos e James em Fortaleza e entre muitas risadas, conversas sobre tudo e momentos maravilhosos a Michele me fez o desafio: "Porque você não faz o IRONMAN Fortaleza?". Imediatamente eu disse que ela estava louca, que não tinha a menor condição de eu fazer um Iron estando tão fora de forma como eu estava e que além disso nem havia um IRONMAN Fortaleza, afirmação que foi desmentida alguns cliques depois que entrei no site do www.ironman.com e descobri que em novembro de 2014 aconteceria o primeiro IRONMAN em Fortaleza.
Naquela noite eu mal consegui dormir, pensei em todas as desculpas possíveis para não correr o Iron em 2014 e na manhã do dia seguinte descobri que nenhuma delas era válida, não tinha porque não fazer, portanto antes de irmos à praia na manhã  do dia seguinte fiz minha inscrição. Estava feito, a sorte estava lançada, aquela decisão mudaria nossas vidas no ano de 2014.

Depois das férias já de volta a São Paulo procurei meu antigo treinador Emerson Vilela e dividi com ele a decisão que havia tomado algumas semanas antes, naquele momento apenas 4 pessoas sabiam dela, Fernanda, Michele, James e agora o Emerson.
Quando falei ele se empolgou muito e imediatamente começamos os treinos.

Tudo se repetia retomei os treinos com o Emerson, que agora contava com o prof. Bacana nos dando todo suporte nos treinos de ciclismo, além deles os treinadores de natação da Reebok (Vivi, Ricardo e Diego) se empenharam em tirar a âncora que tinha "amarrada no meu pé" na hora de nadar.
No campo nutricional dessa vez contei inicalmente com o suporte da Dayana Araujo e depois da Renata Pahlsson, com a ajuda delas consegui sair dos 93 kg e chegar aos 83 kg em 5 meses, um trabalho fantástico.
Finalmente, sem retomar os trabalhos com o Roney Campos nada seria possível, semana após semana, depois de muitos treinos intensos e muito desgaste do corpo e da mente o Roney me devolvia de volta aos treinos com sua técnica e acupuntura.

E assim se passaram 10 meses, período difícil em que durmia menos de 5 horas por noite, suportei dores no corpo, passei muito pouco tempo com minha esposa e com a família e com amigos e ainda assim precisava continuar com minha carreira profissional e várias coisas aconteceram aí.
No meio do ano mudei de emprego e com isso, além de toda carga vinda dos treinos para o Iron ainda precisei me concentrar no meu novo emprego e lidar com os desafios das minhas novas funções na nova empresa.
Mas, isso tudo faz parte, e todas essas coisas me prepararam para o IRONMAN Fortaleza!

Mi e James comigo no dia da retirada do kit da prova.
A semana da prova foi perfeita, chegamos a Fortaleza na quarta-feira, eu e o prof. Bacana viajamos junto com nossos amigos MIchele e James, que passaram alguns dias na nossa casa em São Paulo e iriam nos receber na casa deles em Fortaleza, o resto da semana seria muito intensa, pois tinha que cumprir várias atividades até chegar no momento da largada, treinos de natação, bike e corrida, retirada do kit, congresso técnico e bike check-in.
Tudo cumprido com rigor e assim estava pronto para a largada.

O dia da prova começou mais que perfeito, sem muito vento e o mar aparentemente calmo, entrei na água, não necessariamente para aquecer, mas principalmente para tentar minimizar a tensão, o momento da largada é sempre muito nervoso para mim.
Finalmente entramos na água, quase 1.500 "loucos" prontos para um dia incrível numa das mecas no kite-surf no mundo.
A largada foi dada com uma buzina marítma, sou obrigado a confessar que adoro esse momento!
Os 3.800 m de natação se tornaram 4.400 m para mim, as ondulações, a correnteza e o sol dificultando minha orientação me tiraram do caminho correto na volta, mas mesmo assim consegui cumprir com a minha previsão, a expectativa era eu fazer a perna de natação em 1h40min e acabei chegando de volta à transição em 1h30min, um começo fantástico.

Fiz a transição para a bike sem muita pressa, queria garantir que não me esqueceria de nada e não me esqueci, comecei a pedalar bem, confiante e pensando apenas na próxima pedalada, pois pensar nos 180 km não ia ajudar muito. Os primeiros 55 km foram muito desgastantes, calor extremo e o constante vento contra tornaram o trecho de vento contra uma pequena tortura, mas sabia que seria assim e me preparei mentalmente para com muita paciência suportar essa adversidade.

Assim, me livrei do vento contra e pude aproveitar 35 km de diversão e vento a favor, mas esse foi só um pequeno refresco, pois ainda teria que enfrentar mais 35 km de vento contra antes de partir para os últimos 55 km de vento a favor e finalmente chegar à transição para a corrida. Os quilômetros finais da bike foram bastante difíceis, comecei a ter câimbras e assim notei que havia me alimentado errado durante o pedal, esse era o prenúncio de que a corrida seria difícil, mas tudo ainda caminhava de acordo com o plano, a expectativa era pedalar em 6h00, fechei os 180 km em 6h20, até ai tudo dentro do planejado, apenas 10 minutos além do que previa.
Cheguei na transição para a corrida, surpreendentemente estava me sentindo muito bem, desci da bike e consegui correr vigorosamente até a tenda de troca, muito pouco sinal das câimbras, novamente fiz a transição com calma e com muita consciência. O começo da corrida foi o de sempre, bem difícil já que o corpo leva tempo para se adaptar com a nova modalidade, mas dessa vez foi diferente estava sem energia suficiente para continuar, com isso meu ritmo foi de 4min50s/km que fiz nos 4 primeiros quilômetros para 7min30s/km, as câimbras das coxas migraram para as panturrilhas e tudo que eu queria era encontrar uma forma de aumentar o meu nível de energia para melhorar o pace e voltar para a prova. Apesar do ritmo lento eu sabia que não podia parar, me mantive sempre em movimento e em cada posto de hidratação tentava combinações diferentes de alimentos, gatorade, bananas, carboidrato em gel e coca-cola, nada funcionava muito bem nessa altura do campeonato, meu estômago  doia e nada que comia parecia adiantar, até que por volta do quilômetro 28 comecei a comer bisnaguinhas com gatorade, como num passe de mágica minha energia voltou, não sei se apenas pela comida ou se também pela energia que recebia do público e principalmente da minha família e amigos que estavam lá. E quanto a isso tenho uma nota especial, depois da primeira volta da corrida tive uma surpresa totalmente inesperada, minha mãe e meu primo Rodrigo Bueno foram assistir à prova, chegaram de surpresa, não avisaram a ninguém e me agraciaram com um grito de incentivo na minha primeira passagem depois de 14 km de corrida, foi emocionante ver minha mãe assistindo a prova.

Finalmente, melhorei e corri os 10 últimos quilômetros num pace decente e cheguei à linha de chegada, quanta emoção, nos últimos metros da prova sentia uma felicidade extrema, uma sensação de dever cumprido, a coroação de 10 meses de trabalho duro e o melhor de tudo, ver que tenho uma família e amigos que me apoiaram, sofreram junto comigo e sem mim por causa dos treinos intermináveis e que puderam estar lá e dividir comigo aquele momento que ficará marcado na minha memória como um dos melhores da minha vida.


Agora sim tenho a real dimensão do que é ser um IRONMAN!

Antes de terminar, não posso deixar de fazer uma nota especial à minha amada esposa, desde o momento da primeira idéia de fazer o IM Fortaleza até a linha de chegada ela esteve comigo, foi minha maior incentivadora e sofreu com as privações que tivemos que passar e pelas minhas ausências, tudo para que pudéssemos sentir a felicidade que sentimos na chegada do Iron, Fê você é a melhor mulher, amiga e companheira do mundo, te amo!




Andy Assunção.

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